A casa onde moro foi construída no início dos anos 50, pelo meu avô Domingos, um desenhista projetista que além de desenhar maquinário, desenhou uma ou outra casa para conhecidos, e pra ele próprio.
Infelizmente nunca conheci o vô Domingos, mas minha vó Julia sempre contou que quando os dois conseguiram comprar o terreno da nossa casa, na zona leste da cidade, não tinha muita coisa por esses lados. As ruas não eram asfaltadas, haviam muitas árvores, quase nenhum comércio por perto, e a linha do trem. Os dois vinham de família humilde, de imigrantes tardios, e o terreno era tudo o que tinham.
Assim, meu avô começou a construir a casa aos poucos. O terreno é longo e inclinado, e a primeira versão da casa era um cômodo próximo à rua, onde hoje fica a sala de visitas e a garagem. Com o tempo, meu avô foi juntando mais dinheiro, e ampliando a casa, de acordo com o projeto que ele tinha feito. Conta-se que meu avô e até alguns vizinhos (como o pai da dona Marli) fizerem parte da construção, colocando a mão na massa, literalmente. Minha vó diz ter ajudado a carregar muitos tijolos.
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| Minha mãe, minha vó Julia e o avô Domingos, e o pequeno Márcio, filho dos meus padrinhos, na laje que fica em frente de casa, Julho de 1968. |
A casa é peculiar, ainda que nem tudo tenha sobrevivido ao tempo. Na entrada, o jardim era cercado por um tronco sinuoso de cimento que o delimitava (Infelizmente, esse detalhe já se foi.). A fachada é uma mistura de cores e texturas: Pedra mineira nas paredes laterais; pedra santa isabel e quartzo rosa nas paredes frontais; pastilhas cor-de-rosa, verdes e pretas nas marquises sobre a porta da garagem e da janela da sala; e ainda quartzo verde na faixa de parede acima das marquises. Essa mistura toda até que ficou bem harmônica, além de se mesclar aos tons de verde do jardim.
No mais, outras peculiaridades: a sala de estar fica no primeiro andar, enquanto os quartos, cozinha e quintal ficam no segundo andar da casa, acompanhando o terreno inclinado. Subindo um pouco mais, uma lavanderia, e mais um pouco, uma edícula, que no passado era alugada para pequenas famílias.
Foi assim, inclusive, através do aluguel da edícula, que meus avós conheceram meu padrinho e minha madrinha, na época um casal de jovens com filhos pequenos que acabaram alugando a casinha e fazendo amizade com o seu Domingos e a dona Julia.
A sala de visitas no andar de baixo era separada da garagem por uma grande estante de madeira, que ia do chão ao teto, e escondia em uma de suas portas a passagem para a garagem, quase que como uma passagem secreta mesmo. Era muito bacana. E as demais paredes eram revestidas de lambri, imitando madeira. A estante, com sua passagem "secreta" e os lambris já se foram graças a uma infestação de cupins.
A cozinha era de azulejos brancos e piso de cerâmica vermelho, daqueles que eram encerados e ficavam brilhando. Ao lado da cozinha, ficava a nova sala de estar, essa mais bem localizada, e mais informal, com pastilhinhas laranjas e azuis nas paredes e piso de caquinhos vermelhos. A sala dava pra uma área, quase que um jardim de inverno, onde eu e meu irmão brincamos muito.
Essa área, a sala e a cozinha foram reformadas no final dos anos 80, quando eu ainda era bem pequena, para dar lugar a uma cozinha maior, com sala de jantar integrada e um pequeno quartinho para depósito. Isso tudo porque a casa tinha apenas dois quartos, e com a minha chegada, decidiu-se transformar a velha sala de jantar em um terceiro quarto, que ainda habito hoje, enquanto aguardo a reforma da edícula nos fundos, para poder me mudar.
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| Eu e meu irmão na laje que fica na frente da casa, por volta de 1991. Piso de caquinho vermelho, preto e amarelo, onde brincamos muito. |
"Ah, se ter saudade é ter algum defeito,
eu pelo menos mereço o direito
de ter alguém com quem eu possa me confessar..."
(Dorival Caymmi, Saudade da Bahia)
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